sábado, 23 de junho de 2007

Contenda com Deus (1ª parte)

Não é penosa a vida do homem sobre a terra?
Não são os teus dias como os de jornaleiro?
Como escravo que suspira pela sombra
E como jornaleiro que espera pela sua praga,
Assim me deram por herança meses de engano
E noites de aflição me proporcionaram.
Ao deitar-me, digo: quando me levantarei?
Mas é comprida a noite,
E farto-me de me revolver na cama, até à alva.
A minha carne está vestida
De vermes e de crostas terrosas;
A minha pele se encrosta e de novo supura.
Os meus dias são mais velozes
Do que a lançadeira do tecelão
E se findam sem esperança.
Lembra-te de que a minha vida é um sopro;
Os meus olhos tornarão a ver o bem.
Os lhos dos que agora me vêem
Não me verão mais;
Os teus olhos me procuração,
Mas já não serei.
Tal como a nuvem se desfaz e passa,
Aquele que desce à sepultura
Jamais tornará a subir.
Nunca mais tornará à sua casa,
Nem o lugar onde habita
O conhecerá jamais.
Por isso, não reprimirei a boca,
Falarei na angústia do meu espírito,
Queixar-me-ei na amargura da minha alma.
Acaso, sou eu o mar
Ou algum monstro marinho,
Para que me ponhas guarda?
Dizendo eu: consolar-me-á ao meu leito,
A minha cama aliviará a minha queixa,
Então, me espanta com sonhos
E com visões me assombras;
Pelo que a minha alma escolheria,
Antes, ser estrangulada;
Antes, a morte do que esta tortura.
Estou farto da minha vida;
Não quero viver para sempre.
Deixa-me, pois, porque meus dias são um sopro.
Que é o homem, para que tanto estimes,
E ponhas nele o teu cuidado,
E cada manhã o visites,
E cada momento o ponhas à prova?
Até quando não apartarás de mim a tua vista?
Até quando não me darás tempo
De engolir a minha saliva?
Se pequei, que mal te fiz a ti,
Ó Espreitador de homens?
Por que fizeste de mim um alvo para ti,
Para que a mim mesmo me seja pesado?
Por que não perdoas a minha transgressão
E não tiras a minha iniqüidade?
Pois agora me deitarei no pó;
E, se me buscas, já não serei.

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